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MV diz que a rejeição da vida aparece em estados posteriores, mas que na hora de nascer, e já antes, tudo é aceitação da vida. Mas, é isso assim?? O que dizer do alarido com que as crianças nascem, do choro primordial, do primeiro contato traumático (estudado por Freud) com o mundo? Não é o alarido da criança já a sua primeira opinião filosófica sobre o mundo? Por que ele não nasce rindo, ou, pelo menos, calmo? Quando o bebê é despejado no mundo no momento do parto, a sua primeira reação é pessimista, um protesto pela desconsideração e o incômodo, um alarido inicial que ele não teve que apreender, como sim terá que apreender a rir, nas primeiras semanas ou até meses de vida (o que já marca, no próprio ato inaugural de ser, a assimetria pessimista: o bebê aprende a rir, mas nasce chorando); o bebê nasce, trazido à força por desejos alheios, num inicial desespero, num grito de profundo e abissal desamparo, num terror primordial que, logo de imediato, a través de movimentos, caricias, cuidados, etc, os adultos tentarão suavizar; movimentos que se repetirão ao longo de toda a sua vida: desespero inicial seguido de cuidados protetores; mas os cuidados são posteriores ao desespero; é o desespero o primeiro, e os cuidados as reações. Não estão no mesmo nível. Assimetria!
— JULIO CABRERA