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Os humanos vivem de maneiras automáticas, mantêm entre si relações rotineiras, não sabem quase nada sobre aqueles outros humanos com que lidam diariamente; conhecimentos sumários sobre os outros são suficientes para trabalhar e comportar-se. Cumprimentam-se e perguntam "como estão", mas já não escutam a resposta; querem apenas saber se está "tudo bem" para poder continuar levando adiante distraidamente suas relações epidérmicas. E se alguém manifesta, por acaso, que está mal (que está muito doente, ou endividado), seu interlocutor ficará calado, como se o outro tivesse quebrado uma sagrada regra do convívio; depois de alguns minutos dirá: "Mas, fora disso está tudo bem, não é?". Os humanos acharam essa forma descontraída, indiferente, sumária e autocentrada de "levar a vida" quando perceberam que viver a vida, realmente vivê-la e não apenas "levá-la", implicaria numa enorme despesa em termos de sofrimento, solidão, reflexão e ligação com o mundo.
— JULIO CABRERA