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Toda a nossa vida é vivida no registro da ocultação; mas a ocultação é, sempre, fracasso da ocultação; ela mostra ao tempo que oculta (na verdade, mostra ao ocultar, num único gesto malogrado). O residual não se deixa eliminar e insiste em voltar para a superfície depois de todos os nossos esforços por despejá-lo, como os detritos de uma privada entupida. A nossa infelicidade consiste em sermos seres terminais que não fazem a menor ideia de como terminar. Só sabemos começar processos, não sabemos acabá-los. Somos “ultimados” pelo não ser que somos antes de conseguir aprender a terminar nós mesmos. Somos ultimados pelo ser que não conseguimos ultimar. Morremos sempre atropelados pela morte, sem ter aprendido a morrer. Como nos filmes, na vida, o que mais importa é “como termina”, “que fim levou”. (Curioso que os humanos não gostam de filmes – como “Titanic” – em que o herói morre no final, mas dizem gostar das suas vidas, que são sistematicamente histórias em cujo final morre o herói: nós mesmos).
— JULIO CABRERA