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Claro que a possibilidade de o nascido não ter forças suficientes para suportar a luta pela vida é só isso, uma possibilidade, não uma necessidade; mas o ponto é que a sua mera possibilidade já é suficiente para a imputação moral. Não há relações causais firmes entre métodos de formação, educação e tratamento de filhos e seus destinos e escolhas. Como se diz no cotidiano, isso é, em grande medida, "uma loteria": aquelas providências que os genitores tomam para evitar certos riscos podem ser, precisamente, as que precipitem os filhos neles. As muitas vidas que acabam catastroficamente parecem um preço muito elevado para justificar moralmente a "aposta" da procriação, mesmo aquela feita da maneira mais séria possível pelo "procriador responsável". (As numerosas catástrofes "compensam" algumas vidas "bem-sucedidas"? Podemos fazer cálculos de "ganhos" e "perdas" com vidas humanas possíveis, mais do que o fazemos com vidas humanas reais?). Mas o importante é que mesmo não se apresentando nenhuma dessas situações calamitosas, o "triunfo" vital do filho, o fato de ele ter conseguido aquele "equilíbrio" (sempre moralmente oneroso, pela tese da inabilitação) entre a invenção de valores e a estrutura terminal do ser, não isenta os genitores da responsabilidade de tê-lo colocado no risco de cair em alguma daquelas catástrofes. Além do mais, mesmo o filho tendo "ganhado" a aposta, seu "triunfo" ficará para sempre e indefinidamente vinculado à unilateralidade do ato procriador: o filho terá ganhado a aposta, mas ela nunca terá sido, radicalmente, a sua aposta. Ele poderá, como máximo, ganhá-la, mas nunca poderá ter escolhido concorrer.
— JULIO CABRERA