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Apesar da soberba afirmação de Singer dele ter, finalmente, descoberto a solução definitiva do problema do aborto, podendo encerrar definitivamente a questão, a sua "demonstração" depende de muitas sub-argumentações possíveis (que ele prefere não "ver"). Seu argumento pró-aborto só consegue ser estabelecido se aceitarmos algum tipo de ética utilitarista segundo a qual o bem-estar dos seres humanos concretos está por cima de qualquer ideia abstrata ou metafísica de "pessoa humana" (algo que as tornaria "intrinsecamente valiosas"). Também depende da ideia de que o eticamente relevante é que os seres humanos não sofram dor inútil, e da tese de que um ser humano pode definir-se mediante um conjunto de propriedades relevantes bem determinadas (os famosos "indicadores de humanidade"). Também depende de certa definição muito específica dos termos "matar" e "inocente" na expressão "ser humano inocente", e da desativação da ideia da "potencialidade", no sentido de alguém poder ser potencialmente uma coisa num momento t + 1, que lhe daria direitos em t. Trata-se de um alto número de pressupostos sem os quais a conclusão “objetiva” e "definitiva" não decorreria. Qualquer arguidor que não aceite pelo menos um desses pressupostos, não aceitará os "resultados incontestáveis" de Singer. E contrariamente ao que ele afirma, os que não os aceitam não estão "simplesmente equivocados", mas assumem outros pressupostos e Gestalten perfeitamente plausíveis, sustentáveis e racionais dentro da rede de argumentações. Singer ignora drasticamente todos os questionamentos e obstáculos da sua linha de argumento (por exemplo, as controvérsias sobre os "indicadores de humanidade") e é apenas dessa forma que ainda consegue alimentar a ilusão de ter "resolvido" o problema do aborto. — JULIO CABRERA
JC
Julio Cabrera
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